Um dia para celebrar

Eu tive contato com alguns mexicanos pela vida, principalmente por conta do trabalho, e é um povo que desperta minha curiosidade. Gosto dos costumes, cultura, culinária () e da maneira deles de enxergar a vida e encarar a morte. É claro que conheço muito pouco de tudo isso, mas a curiosiade e a vontade de conhecer mais é realmente grande. Com certeza o México é um dos países na minha lista de lugares para ir pós pandemia.

Dentre alguns de seus costumes, um que acho sensacional é o Día de los Muertos, que foi celebrado até ontem (dia 02 de novembro). Ele nunca fez parte oficialmente da minha vida, só por realmente não fazer parte da minha cultura e da minha família e eu só o conheci depois de adulta. Mas desde o primeiro contato e todos os que vieram depois dele, através de filmes e pesquisas, achei bastante interessante.

Eu amo história antiga e essa vem de longe, já existe desde o tempo dos Astecas e dos Maias. E a data é, na verdade, celebrada em alguns outros países também. Acho que quase todo mundo já deve ter visto alguma caveirinha mexicana em algum lugar, mas acredito que muita gente não saiba muito sobre o real significado desta data.

Mas então, o que é exatamente o Día de los Muertos?

É um dia para se celebrar a vida e a morte, prestando uma homenagem festiva aos mortos. A história diz que nesse dia as almas podem voltar do além para estar perto de seus entes queridos, que festejam com grandes banquetes, música e apresentações artísticas.

Na comemoração é costume visitar os cemitérios e preparar altares (os tradicionais tem sete níveis) com alimentos, velas, flores, fotos dos falecidos, oferendas e outros elementos que reúnem uma série de significados e valores especiais.

Uma característica bastante marcante são as flores, que representam a beleza e a transitoriedade da vida. Existem algumas que são utilizadas, mas aquela amarelona, que é a que mais vemos, é a cempasúchil (conhecida como cravo-de-defunto). Segundo relatos de um colega mexicano, os Astecas acreditavam que a sua cor amarela representava o Sol que guia as almas até a última morada.

Elas são utilizadas para a decoração dos altares e em forma de arcos que representam um portal de entrada dos falecidos para o mundo dos vivos. E já ouvi dizer que alguns usam as pétalas para formar um caminho que ajuda as almas a encontrarem o altar da família. Mas não sei dizer até onde esse costume ainda é praticado nos dias de hoje.

Outra parte sensacional desta tradição é o significado das famosas caveiras mexicanas. Diz-se que no início utilizavam-se crânios reais (meio sinistro kkk)! Mas, isso foi há muitos e muitos anos atrás, porque os Astecas, por exemplo, guardavam os crânios de seus familiares e amigos por acreditarem que a cabeça era a parte onde ficavam armazenadas todas as boas lembranças e memórias da pessoa que faleceu. Mas relaxa que ao longo dos séculos eles foram adaptados por imagens simbólicas de caveiras 😂.

A caveira é considerada um tipo de proteção contra espíritos malignos e uma homenagem a vida. E as enfeitadas e cheias de flores, como vemos hoje, têm origem na personagem “La Catrina”, do cartunista e ilustrador José Guadalupe Posada. Foi criada com o objetivo de dizer que a morte é democrática, já que, no fim das contas, brancos, negros, ricos ou pobres, toda a gente acaba virando caveira”. A crítica social foi feita para valorizar a cultura mexicana e relembrar que, na hora da morte, somos todos iguais. Pois, na época, muitas pessoas renegavam a própria cultura devido aos maus olhos do povo europeu em relação aos costumes locais.

A tradição tem uma proporção, beleza e significado tão grande, único e especial que em 2003 foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. Incrível, não?

Eu sempre achei o dia de finados um dia muito triste. Particularmente, eu não me sinto bem indo a cemitérios e, principalmente neste dia, acho que fica um clima muito pesado. Acredito que, especialmente, por isso me encantei pelo Día de los Muertos. É um momento encarado com alegria. Não é um dia de sofrer porque perdemos as pessoas, mas sim para celebrar e homenagear tudo que elas fizeram e foram em vida.

Já ouvi opiniões mais negativas sobre esta tradição, pode parecer até meio mórbido para quem vê de fora, principalmente por causa das caveiras e tudo mais. Mas como tudo na vida, acho que é uma questão de como você escolhe olhar. Eu, por exemplo, enxergo como uma maneira de lidar com a morte de um jeito menos triste.

Não ousaria incentivar que todos venham a aderir à celebração, até porque é uma questão cultural e envolve religião. Mas em um contexto geral, eu acredito que existem aí alguns conceitos muito interessantes e enriquecedores que ajudam a tornar a vida mais leve e melhor e que podemos incorporar à nossa realidade de maneira sutil e saudável.

E você, o que acha do Día de los Muertos?

Todas as informações deste post são um conjunto de coisas que já pesquisei em algum momento da vida, outras que vi através de reportagens e de relatos de pessoas que conhecem a história mais de perto. Se você, leitor, tiver algo acrescentar ou saiba mais sobre este assunto, estou aberta para dialogar 😉

Referências
https://culturacolectiva.com/historia/origen-e-historia-de-la-catrina
https://ich.unesco.org/en/RL/indigenous-festivity-dedicated-to-the-dead-00054

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11 comentários sobre “Um dia para celebrar

  1. Extraordinario, Gabriela, como siempre. Como mexicano, también puedo decir que un componente esencial para la declaratoria como Patrimonio Inmaterial es la diversidad de las expresiones, que al ser rasgos culturales, cruzan todos los estratos sociales y todos los ámbitos, desde la política hasta la moda. Dicha diversidad también es geográfica: La gastronomía dista mucho de una región a otra del país (Nací y vivo en Villahermosa, la parte tropical de México: Aquí, por ejemplo, los tamales -platillo nacional muy floclórico-, se elaboran con carne de pescado). También existen las “calaveritas”, versos de humor macabro auténticamente populares en el sentido que cualquiera las puede elaborar para ofrendar su amistad o bien -como en el caso de las figuras políticas- su animadversión. Leerlas siempre es un regocijo por su ingenio, su cariño en el caso de las primeras, y capacidad satírica, en el de las segundas. Gracias por tu esplendidez hacia mi país y mi cultura. Abrazo, Gabriela y bienvenida cuando quieras.

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    • ¡Muchas gracias Alejandro!
      Estoy muy feliz con tu comentario 🙂
      Agradezco de corazón.
      Todavía no he comido los tamales. Se ven increíbles.
      ¡Definitivamente visitaré su amado país después de la pandemia!
      Saludos de São Paulo 🌺💞

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    • É muito diferente né? Confesso que gosto de conhecer esses estilos diferentes de encarar a morte. O “nosso” jeito me deixa muito para baixo, procuro adotar, dentro do que é possível, um pouquinho do jeito deles de enxergar.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Eu tomei conhecimento desse dia mexicano através de um filme e fiquei curiosa com aquelas máscaras e fui pesquisar. Achei o máximo todo o ritual e a história por trás.
    Acho que na cultura brasileira a morte é vista de uma maneira bem mais estranha. É um ponto final, como se a vida não tivesse realmente importancia. Acho estranho. Eu gosto de cemitérios. Já fiz tour em vários daqui de São Paulo e fui ao cinema em um, na Inglaterra. Achei muito legal. Participei de um sarau e me lembro da cena no filme da Família Adans do ritual de acordar o morto.
    Minha relação com a morte é outra, então gosto imenso de todas essas celebrações.

    bacio

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    • Que legal, Lunna!
      Eu admiro muito essas formas diferentes de encarar a morte e tenho aprendido muito também. Diria que tem “melhorado” a minha relação com a morte, mas ainda estou aprendendo 😉
      Beijos, querida ❤️🌺

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